quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

     Começou com uns poucos flocos de neve, uma neve rala, quase insuficiente pra cobrir os telhados das casas. Pouco a pouco, aquele lençol esbranquiçado que caía aos pouquinhos foi tomando conta das ruas, dos cruzamentos vazios de carros, do amarelo-verde que contagiava as folhas das árvores dos parques. Sempre achei engraçada a forma com que os pontos brancos caíam do céu de forma implacável e tão serena, expulsando a todos e coroando os começos.
     É claro que essa neve não existe mais. A questão é que, mesmo sabendo dessa inegável inexistência, foi para ver a neve que hoje olhei para o céu, depois para as casas, as ruas…

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     Sinto sua falta, sabe, Meu Anjo. Sinto que você não pode nunca estar completamente comigo quanto estou com você. Isso provavelmente se deve à sua existência tão divina, não? Porque é simplesmente o que você parece significar pra mim, Meu Anjo. Divindade.
     E você significa contra a minha vontade. Você significa sem pedir licença. Claro, você nunca precisaria pedir licença para mim, mas você poderia sim ser mais cuidadosa. Porque então, me vejo sem poder explicar você, que cresceu em mim de um jeito que me fez abrir todas as janelas e todas as portas para deixar que você crescesse livremente.
     Antes que você pergunte, Meu Anjo, é claro que não tenho a pretensão de explicá-la. Provavelmente sua explicação transcende todos os meus motivos, minhas razões, minhas paixões. Talvez você simplesmente esteja muito além. E é daí que vem esse meu medo, que faz com que as portas e as janelas queiram se fechar e prender seus dedos.
     Mas a quem engano? Não é de meu feitio questionar essas suas imposições que são tão doces, Meu Anjo. Porque você sabe muito bem, assim como sei muito bem, que o que é divino não se contesta. Você provavelmente se pergunta de onde enxergo essa divindade. Tão poderosa e tão tola.
     Sua divindade é antes de tudo simbólica. Enxergo suas asas nos seus passos, quando você parece flutuar como lírios que porventura caem em água de um rio de Invernos... Sua auréola é esse modo com que você parece me puxar, me instigar a observar todos os seus passos. E desejar que todos os passos se dirigissem a mim.
     E seu poder é esse mesmo. O de me fascinar com cada gesto, com cada olhar, com cada passo. O mero pensamento de um sorriso seu faz com que eu queira me agarrar às suas asas e deixar que você me carregue sem se preocupar em dizer pra onde vai. 

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Conversando com Pessoa

     “Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?”
Fernando Pessoa


     Acho que o que fere a maioria das pessoas é esse sentimento exagerado de se querer sentir mais do que se pode. Querer perpetuar-se em achismos e em supostas imposições que são forçadas ao amor. Porque amar sempre foi, e sempre será, tão simples quanto a mais simples das coisas. Ainda que amar seja tão difícil.
     Fere assim como tudo que não se conserva passageiro. Porque esse passageirismo que é atribuído ao amor se garante sempre por demais falho. O amor em si nunca foi, nem nunca será, passageiro. Passageiros são os embargos que se criam pra evitar o profundo desespero de uma entrega completa ao amor que espreme, aguça, fere e gruda.
          É incrível como tudo que se reserva à existência possui caráter tão provisório. Minhas conquistas e meus limites são limitados por um plano finito demais pra que se tenha notória liberdade de ação. O caráter tão passageiro fere sem pedir licença nenhuma.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Pois é, que coisa chata. Isso de nessa vida a gente precisar se acostumar a tudo. Da gente precisar se fazer, e fazer os outros, e deixar ou não deixar que os outros façam a gente da forma como eles querem, ou nós queremos que eles queiram. Que coisa chata essa de sentir medo de dizer o primeiro eu te amo, ou de ficar desejando que a chuva venha sem consequências, ou simplesmente que a chuva venha. E as consequências que são assim tão difusas e tão cessantes? Sésseis quiçá.
E essa impossibilidade minha, sua, nossa ou deles, aquele vazio continental de imaginar sem nunca saber realmente o quanto a gente anda à deriva, ou o quanto as pessoas andam à deriva por nossa conta, e nós por elas. Ou eles. E se de repente você fosse um só, um único sozinho, um singular pináculo, resto de caixa velha com música doce, sem pilhas. Pilha é uma coisa muito moderna.
Que coisa chata essa de querer vingar-se dos dias em que o sol desponta, por preferir a chuva. Ou então de regar flores com a insensatez de um bom samaritano amigo que afoga as plantas, e as mágoas, e vai pro bar afogar os desencantos que são impostos pela hipocrisia dos dias em que os pássaros cantam livres.
Que coisa chata essa de ter que escrever pensando, de ter que se guardar para os pormenores de futuros inadequados às realizações dos nossos servos vis e amargos toda vida, com intransigência e necessidade de colocação num nosso mundo que se refuta a todo instante, calmo e lento, e vívido. Vida, viver, vivendo, vislumbre.
E essa coisa tão nossa, na verdade tão sua e tão pouco minha, de sentir necessidade de dizer algumas coisas que a gente teima, teima e não consegue dizer. Essas vias que não levam ao fato, porque não concentram o bastante de nós dois. Enfim sós. Somente.
Sabe que você foi em mim? Você foi como nunca, e ser foi a única maneira que voce tinha dentro de você pra continuar próxima. Próxima de mim, de nós, daquilo que a gente tem, tinha, teria, tivesse, o tepo que achar mais confortável. O essencial já se foi em terra, afinal, não importa muito. Só queria que voê soubesse que, durante umas noites, você foi, e sempre tão por sí, a única das chamas, das luzes, qualquer arcaicismo que preferir evocar nessas nossas inverdades postas à tona. Voar sim, mas nunca alto...

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Agosto

     Acho que tudo começou em Agosto. Não sei dizer com certeza o que foi que determinou essa nossa existência tão capaz e tão ansiosa. Mas sei afirmar com certeza que nosso começo foi reflexo das nossas idéias, imagem pálida dos nossos olhos, e construção aflita de uma nossa convivência que foi, acima de tudo, passageira o bastante pra nunca mais nos deixar.
     Nós víamos o tempo todo aquelas estórias de amores impossíveis, de conquistas além dos nossos fracos pontos de vista e nosso pouco apego aos pormenores de futuros que eram possíveis, ainda que distantes. E no nosso desejo mais íntimo, desejávamos ser protagonistas de cada uma delas, sem que precisássemos sofrer a vertigem do amor que nos foi sempre tão declaradamente conturbado.
     Não acho que eu mesmo possa dizer o que somos, talvez porque nem mesmo precisemos ser alguma coisa. Talvez apenas sejamos, sem nos preocupar com nossa condição de nenhuma forma. Porque não existem condições, assim como não existem limites pra nossa existência que permanece, acima de tudo, fugaz.
     Creio que possa ter sido o desejo de amar que nos motivou a fugir das gaiolas que ocupávamos. Mas desde o começo, não amamos de uma forma qualquer: Amamos a possibilidade do ato de amar, e a tão refrescante passividade do ser amado. De todas as formas: Por amantes, por amigos, por destrezas quaisquer que se fizessem possíveis nos desertos que experimentávamos todos os dias.
     Porque eram esses desertos os nossos amores primeiros e, cegos, não percebíamos a agressiva vaziez que nos era tão comum, ainda que tão intensa. Pelo menos até onde ela possa ou deva ser intensa. De certa forma, éramos tão amantes dos nossos desertos quanto de nós mesmos. E isso os desertos não perdoavam.
     Íamos formando os clãs dos nossos desaforos, que eram originários de nossas discussões com a vastidão tão nociva que esses desertos ofereciam. E os clãs se aliavam entre si, e as batalhas que eram travadas eram de conhecimento unicamente nosso. E como não podia deixar de ser, os gastos da guerra e a destruição dos campos nos foram dores majoritárias.
     Mas nessas batalhas tão internas, os desertos encontraram seu fim. E queria poder dizer que, depois disso, o verde reinou com soberania indiscutível. Mas não existe ainda o verde, porque as nossas terras permanecem inférteis. Nossa fertilidade se apresenta incerta demais pra que se possa crescer dentro de nossos domínios.
     O que posso dizer foi que tudo começou em Agosto. E depois de Agosto, quando nos livramos das gaiolas, formamos nossos clãs e estabelecemos alianças contra nossos desertos tão incertos, nem mesmo Setembro se atreveu a passar.