Pois é, que coisa chata. Isso de nessa vida a gente precisar se acostumar a tudo. Da gente precisar se fazer, e fazer os outros, e deixar ou não deixar que os outros façam a gente da forma como eles querem, ou nós queremos que eles queiram. Que coisa chata essa de sentir medo de dizer o primeiro eu te amo, ou de ficar desejando que a chuva venha sem consequências, ou simplesmente que a chuva venha. E as consequências que são assim tão difusas e tão cessantes? Sésseis quiçá.
E essa impossibilidade minha, sua, nossa ou deles, aquele vazio continental de imaginar sem nunca saber realmente o quanto a gente anda à deriva, ou o quanto as pessoas andam à deriva por nossa conta, e nós por elas. Ou eles. E se de repente você fosse um só, um único sozinho, um singular pináculo, resto de caixa velha com música doce, sem pilhas. Pilha é uma coisa muito moderna.
Que coisa chata essa de querer vingar-se dos dias em que o sol desponta, por preferir a chuva. Ou então de regar flores com a insensatez de um bom samaritano amigo que afoga as plantas, e as mágoas, e vai pro bar afogar os desencantos que são impostos pela hipocrisia dos dias em que os pássaros cantam livres.
Que coisa chata essa de ter que escrever pensando, de ter que se guardar para os pormenores de futuros inadequados às realizações dos nossos servos vis e amargos toda vida, com intransigência e necessidade de colocação num nosso mundo que se refuta a todo instante, calmo e lento, e vívido. Vida, viver, vivendo, vislumbre.
E essa coisa tão nossa, na verdade tão sua e tão pouco minha, de sentir necessidade de dizer algumas coisas que a gente teima, teima e não consegue dizer. Essas vias que não levam ao fato, porque não concentram o bastante de nós dois. Enfim sós. Somente.
Sabe que você foi em mim? Você foi como nunca, e ser foi a única maneira que voce tinha dentro de você pra continuar próxima. Próxima de mim, de nós, daquilo que a gente tem, tinha, teria, tivesse, o tepo que achar mais confortável. O essencial já se foi em terra, afinal, não importa muito. Só queria que voê soubesse que, durante umas noites, você foi, e sempre tão por sí, a única das chamas, das luzes, qualquer arcaicismo que preferir evocar nessas nossas inverdades postas à tona. Voar sim, mas nunca alto...