terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Pois é, que coisa chata. Isso de nessa vida a gente precisar se acostumar a tudo. Da gente precisar se fazer, e fazer os outros, e deixar ou não deixar que os outros façam a gente da forma como eles querem, ou nós queremos que eles queiram. Que coisa chata essa de sentir medo de dizer o primeiro eu te amo, ou de ficar desejando que a chuva venha sem consequências, ou simplesmente que a chuva venha. E as consequências que são assim tão difusas e tão cessantes? Sésseis quiçá.
E essa impossibilidade minha, sua, nossa ou deles, aquele vazio continental de imaginar sem nunca saber realmente o quanto a gente anda à deriva, ou o quanto as pessoas andam à deriva por nossa conta, e nós por elas. Ou eles. E se de repente você fosse um só, um único sozinho, um singular pináculo, resto de caixa velha com música doce, sem pilhas. Pilha é uma coisa muito moderna.
Que coisa chata essa de querer vingar-se dos dias em que o sol desponta, por preferir a chuva. Ou então de regar flores com a insensatez de um bom samaritano amigo que afoga as plantas, e as mágoas, e vai pro bar afogar os desencantos que são impostos pela hipocrisia dos dias em que os pássaros cantam livres.
Que coisa chata essa de ter que escrever pensando, de ter que se guardar para os pormenores de futuros inadequados às realizações dos nossos servos vis e amargos toda vida, com intransigência e necessidade de colocação num nosso mundo que se refuta a todo instante, calmo e lento, e vívido. Vida, viver, vivendo, vislumbre.
E essa coisa tão nossa, na verdade tão sua e tão pouco minha, de sentir necessidade de dizer algumas coisas que a gente teima, teima e não consegue dizer. Essas vias que não levam ao fato, porque não concentram o bastante de nós dois. Enfim sós. Somente.
Sabe que você foi em mim? Você foi como nunca, e ser foi a única maneira que voce tinha dentro de você pra continuar próxima. Próxima de mim, de nós, daquilo que a gente tem, tinha, teria, tivesse, o tepo que achar mais confortável. O essencial já se foi em terra, afinal, não importa muito. Só queria que voê soubesse que, durante umas noites, você foi, e sempre tão por sí, a única das chamas, das luzes, qualquer arcaicismo que preferir evocar nessas nossas inverdades postas à tona. Voar sim, mas nunca alto...

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Agosto

     Acho que tudo começou em Agosto. Não sei dizer com certeza o que foi que determinou essa nossa existência tão capaz e tão ansiosa. Mas sei afirmar com certeza que nosso começo foi reflexo das nossas idéias, imagem pálida dos nossos olhos, e construção aflita de uma nossa convivência que foi, acima de tudo, passageira o bastante pra nunca mais nos deixar.
     Nós víamos o tempo todo aquelas estórias de amores impossíveis, de conquistas além dos nossos fracos pontos de vista e nosso pouco apego aos pormenores de futuros que eram possíveis, ainda que distantes. E no nosso desejo mais íntimo, desejávamos ser protagonistas de cada uma delas, sem que precisássemos sofrer a vertigem do amor que nos foi sempre tão declaradamente conturbado.
     Não acho que eu mesmo possa dizer o que somos, talvez porque nem mesmo precisemos ser alguma coisa. Talvez apenas sejamos, sem nos preocupar com nossa condição de nenhuma forma. Porque não existem condições, assim como não existem limites pra nossa existência que permanece, acima de tudo, fugaz.
     Creio que possa ter sido o desejo de amar que nos motivou a fugir das gaiolas que ocupávamos. Mas desde o começo, não amamos de uma forma qualquer: Amamos a possibilidade do ato de amar, e a tão refrescante passividade do ser amado. De todas as formas: Por amantes, por amigos, por destrezas quaisquer que se fizessem possíveis nos desertos que experimentávamos todos os dias.
     Porque eram esses desertos os nossos amores primeiros e, cegos, não percebíamos a agressiva vaziez que nos era tão comum, ainda que tão intensa. Pelo menos até onde ela possa ou deva ser intensa. De certa forma, éramos tão amantes dos nossos desertos quanto de nós mesmos. E isso os desertos não perdoavam.
     Íamos formando os clãs dos nossos desaforos, que eram originários de nossas discussões com a vastidão tão nociva que esses desertos ofereciam. E os clãs se aliavam entre si, e as batalhas que eram travadas eram de conhecimento unicamente nosso. E como não podia deixar de ser, os gastos da guerra e a destruição dos campos nos foram dores majoritárias.
     Mas nessas batalhas tão internas, os desertos encontraram seu fim. E queria poder dizer que, depois disso, o verde reinou com soberania indiscutível. Mas não existe ainda o verde, porque as nossas terras permanecem inférteis. Nossa fertilidade se apresenta incerta demais pra que se possa crescer dentro de nossos domínios.
     O que posso dizer foi que tudo começou em Agosto. E depois de Agosto, quando nos livramos das gaiolas, formamos nossos clãs e estabelecemos alianças contra nossos desertos tão incertos, nem mesmo Setembro se atreveu a passar.